agualeve @ 13:53

Sex, 14/08/09


- A propósito de ter a coragem de dizer a verdade

Nos últimos tempos tem sido comum assistir-se a comunicações institucionais, políticas ou pessoais em que se diz o que não se pretendia ou, pior, diz-se o que as pessoas não compreendem. Ás vezes, alguém vem dizer que afinal o problema é “apenas” a falta de coragem para dizer a verdade.

 

Falar de comunicação é quase sempre um acto individual. E isso significa falar não só de qualidades pessoais, de atitude, de comportamentos mas também da capacidade de criar atenção, satisfação, motivação e entusiasmo. Sabendo que a mensagem dirigida deve ter em conta estes pressupostos, mas também o meio económico, social e político envolvente em que a pessoa se insere, ela deve essencialmente dirigir-se aos valores e interesses pessoais.

 

Daniel Goleman, autor da inteligência emocional, comentava numa entrevista a propósito da comunicação organizacional que a agressividade e a competição feroz dentro das empresas tão em voga nos anos 80/90, foi sendo substituída por uma atitude humanizadora, porque se deram conta que os resultados não dependem somente dos factores mecânicos e de competências.

Há, contudo, inúmeros obstáculos à prática eficaz da comunicação, no contexto das organizações ou no exercício do poder, sendo os mais comuns os que se relacionam com a posição hierárquica – falar mais e ouvir menos – resistência ao contraditório, tendência a confundir o exercício da autoridade e o direito à palavra, como se a livre expressão de outras opiniões constituísse uma ameaça à liberdade.

Também a sobrevalorização da racionalidade económica, dos calendários de gestão, dos (curtos) ciclos políticos e dos objectivos imediatos tendem a constituir um entrave à comunicação, muitas vezes justificada pela optimização dos meios, da urgência e da busca de “eficácia”. Não ficam de fora, naturalmente, as culturas organizacionais ancoradas no autoritarismo e na norma, cuja dificuldade em comunicar é assumida como regra de gestão e de poder.

Esquece-se que a autoconsciência é o elemento essencial da inteligência emocional e o sentimento a mola impulsionadora das nossas decisões, muitas vezes percepcionadas por sinais intuitivos vindos daquilo a que António Damásio chama de “balizadores somáticos”. Esta espécie de mensagem que nos alerta para o perigo potencial funciona também como despertador para as novas oportunidades e novos desafios. Contudo é o equilíbrio e o controlo dos sentimentos (nos valores e significados que encerram) a chave para o bem estar emocional.

E é este bem estar emocional aliado à capacidade de reconhecer as nossas próprias emoções, a chave de ignição capaz de criar um sentimento positivo, novas atitudes, enfrentar as dificuldades, assumir as responsabilidades para ultrapassar os obstáculos e trabalhar todo o nosso potencial de desenvolvimento.

Mas para isso é necessário definir préviamente:


- O que queremos fazer e onde queremos chegar, tanto do ponto de vista pessoal como profissional, já que ambas as dimensões estão interligadas;

- Qual é a nossa ambição, assumindo a responsabilidade da nossa atitude, dos nossos comportamentos e valores;

- Saber em que situação nos encontramos e o que devemos fazer para avançar na direcção pretendida.


Definir uma boa política de comunicação implica desenhar uma metodologia de trabalho e estabelecer um sistema de comunicação que permita o fluxo de informação em todos os sentidos (ascendente, descendente, horizontal e transversal), e a utilização dos instrumentos adequados a saber:


- Produzir ideias claras, utilizando uma linguagem que facilite a recepção
da mensagem, tanto na forma como no conteúdo;

- Ter a coragem de dizer a verdade, ao mesmo tempo que se mobilizam
as pessoas para as causas;

- Promover uma atitude positiva, virada para o futuro e agregadora de
soluções e não de problemas.


A assimilação, o entendimento e a utilização da informação ao longo dos tempos, foi responsável pelo desenvolvimento humano e permitiu-nos comunicar interna e externamente, multiplicando exponencialmente o conhecimento, a cultura e a relação entre os povos.

Sabendo que, em parte, “os factores determinantes da comunicação residem na sociedade e no mundo que nos rodeia, e não no próprio processo” acreditamos que o processo de comunicação – dizer a verdade - ajudará não só a tornar esse processo mais eficaz, mas sobretudo pode ser o caminho para encontrar novas soluções.


Publicado em Portal Lisboa.net, Rubrica: Mercado e Sociedade, Manuel Almeida, Fevereiro 2009


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